11Mar 2014

Sobre dedos apontados quando você está só sendo você

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Não é sobre a maquiagem, sobre as unhas feitas, depilação, cabelo arrumado, roupas novas e todas as regras que englobam a inserção das mulheres nos padrões de beleza. É sobre como as pessoas funcionam, é sobre a dificuldade de ser você quando você é diferente. Amo as iniciativas do GWS! Não deixo passar um post que me encoraje a descobrir quem eu sou e mostrar isso para o mundo. Elas dizem que “…nosso corpo é nosso. As regras são nossas. Ninguém deve nos dizer o que fazer com ele para sermos aceitas. Ninguém deve ser qualquer coisa que outra pessoa além de você mesma quer.” (em mais um de milhares de posts lindos) Isso é foda, é do caralho! Mas como eu faço isso dentro de uma sociedade que me julga, aponta o dedo, olha de cara feia, faz piada, rí, debocha e cochicha do que eu sou?

A primeira opção é não se importar com o que os outros falam. Simples, né? Pode parecer fácil mas como aguentar olhares de repulsa sendo direcionados à você a todo o instante? Quão desestimulante é chegar em um ambiente e ter pessoas dando um passo para trás ao te ver?

Por diversos motivos tenho reparado muito em deficientes físicos. Enquanto eu estava curiosa e admirada ao observar uma pessoa com suas diferenças encarando tudo de uma maneira muito natural, porque para ela aquilo é normal,  fiquei chocada ao ver pessoas ao redor torcendo nariz, dando um passo para trás, estranhando. Eu nunca tinha reparado e me perguntei como elas aguentavam aquilo. Mas elas aguentam porque não tiveram escolha. Ou encaram ou não vivem.

Mas e quando provocar essa reação nas pessoas é evitável? A criança nasce imitando o pai, culturas se propagam, gêneros musicais se definem, línguas se estabelecem e muitas outras coisas acontecem justamente por isso. É próprio do ser humano querer pertencer a um grupo e acompanhar seus hábitos. É muito mais fácil encarar o mundo quando você não está sozinho.

Não ligo para fazer a unha, as vezes tenho preguiça de maquiagem e como a minha pele é negra e meu pelo muito fininho posso até passar o prazo da depilação uma semaninha. Já chegaram pessoas falando para eu andar mais arrumada, fazer mais as unhas, me maquiar mais… Eu rio e falo que vou fazer mas realmente só faço quando quero. Não é que eu não goste, mas as vezes dá preguiça e é isso. Agora, o dia que um monte de gente começar a olhar, se eu reparar uma mulher cutucando a amiguinha do lado e cochichando sobre mim, me analisando de cima a baixo constantemente, desculpa, mas eu saio correndo para dar um jeitinho nisso. Sou errada em não querer parecer um E.T? Eu quero pessoas me elogiando, poxa, eu sou legal! Ouvi uma pessoa dizer que, depois de muitos e muitos anos, está querendo abrir mão de um hábito vestual porque cansou dos olhares, dos dedos apontados e caras estranhas e, acreditem, é um hábito tão simples que eu nem reparei de primeira.

A minha esperança é que existe a segunda opção que torna a primeira bem mais fácil: Pare de ser julgada! Como? Parando de julgar os outros, ora. Toda vez que leio qualquer materia falando sobre esse tema é isso que eu penso e é isso que eu queria que todos pensassem! Eu ainda não sei se quero ser diferente do que eu sou, se preciso expressar algo de diferente que não consigo agora, mas tem pessoas que já descobriram e querem ser do jeito que são, então, não julgue! porque quando você descobrir que tem algo de diferente para mostrar não vai querer ser julgada também.

 

05Fev 2014

O que pode acontecer se derrubarmos os padrões de beleza?

Posted by at in Geral, Moda, Texto

Estou de férias. Mesmo estando no recesso a caminho  do meu último período da faculdade - podendo estar adiantando todo o meu desenvolvimento de coleção para ter uma vida mais tranquila nos próximos meses - estou de férias e estou lendo. Lí um livro sobre uma menina sem qualidades, outro sobre uma garota atormentada e nos intervalos, muitos textos sobre mulheres. Vocês também já devem ter sido bombardiados por um bocado deles. Aquele sobre xingamentos, aquele escrito por um homem, aquele sobre corpos sarados, aquele sobre seios rosados, aquele print sobre a modelo plus size ou aquele vídeo sobre a superação da “garota mais feia do mundo”. Pois é, coincidência ou não, parece que estamos saindo da caixinha. Estamos deixando de  nos submeter a rótulos e estereótipos que nos reprimem para finalmente encontrar o equilíbrio daquilo que somos, aparentamos e queremos ser. E eu fico imaginando o que mais que muda com essas novidades. Qual a diferença que isso pode trazer pra nossa vida, junto com o bem estar de sermos nós mesmas. Então eu pensei…

beleza

01. Os padrões encontrados na mídia

Óbvio! Não é de hoje que queremos ver pessoas reais na mídia. O boom dos blogs e vlogs veio daí, o boom das selfies veio daí. Era a oportunidade de nos inspirar no possível, de escolher alguém que estivesse perto da nossa realidade, com afinidade cultural, financeira, estética, social ou do que fosse para acompanhar. A Dove já percebeu isso a muito tempo, a TPM - apesar de dar suas mancadas -  também e, é claro, que a gente também percebeu. Mas eu vejo mudar de verdade no dia que encontrarmos modelos de 45 a 110 kg sem rotular qual a categoria de modelo elas são. Sem que a magra demais vire notícia por parecer anoréxica ou a gorda vire notícia por parecer estar acima do peso. O dia que um desfile que tenha 60% de modelos negras não vire notícia por ser incomum. O dia que vamos achar normal ver alguém com rugas e cabelos grisalhos em um catálogo, filme, novela ou série de tv. Seja homem ou mulher!

02. Os julgamentos que fazemos

Com uma maior democracia entre os padrões de beleza, podemos julgar cada vez menos. Vamos entender que somos diferentes mas não da maneira que entendemos agora, esse diferente querendo ser igual, esse diferente que precisa de um grupo para se encaixar. Vamos ter mais autonomia para sermos diferentes sozinhos, híbridos e vamos conseguir entender uma coisa óbvia: ninguém nasce igual e ninguém tem nada a ver com isso. Cuidar da sua aparência e dos seus gostos é o direito de cada um. Nada te dá o direito de julgar e dar a sua opinião, principalmente negativa, se aquela pessoa não te pediu.

03. As tendências

Surgindo essa maior autonomia, devemos ver cada vez menos tendências.

Existe  o lado bom da tendência: a industria não pode criar tudo ao mesmo tempo de uma vez, as lojas não podem vender tudo ao mesmo tempo de uma vez e não trabalham com videntes para saber o que as pessoas vão querer usar. A tendência é necessária pra organizar o mercado. Mas ultimamente vejo essa palavra banalizada. Para mim hoje as tendência servem para segregar grupos entre aqueles que estão por dentro do que é fashion e aqueles que estão por fora.

Se formos mais independentes quanto a nossa aparência, vamos precisar cada vez menos seguir e ouvir essa palavra. Ainda devemos querer encontrar maneiras de renovar o nosso estilo, mas isso deve ser muito mais relacionado as nossas afinidades do que uma referência globalizada ditada por alguém que você nem sabe quem.

Sou só eu ou vocês também não adotam uma tendência a muito tempo? A calça listrada, o short-saia da Zara, o sneaker da Isabel Marant são só exemplos de quão desenfreada se tornou essa palavra. Prefiro investir em coisas que eu vou comprar hoje e usar até se desgastar porque tem a ver comigo. Não faz sentido ficar procurando por tendências que podem ser massificadas em menos de um mês.

04. A indústria da moda

Seguindo menos tendências vamos ter menos necessidade de renovar nosso guarda-roupa e vamos preferir produtos mais duráveis. A modelagem e a tecelagem devem ser fatores importantíssimos na hora de comprar uma peça então a indústria deve se ligar nisso. Principalmente a modelagem que agora deve se atentar a atender todos os tipos de corpo. E isso incluindo pessoas deficientes. Até hoje não entendo porque não estudo modelagem para deficientes na faculdade. Também devemos ver mais tecnologia na moda, tecidos mais inteligentes realmente chegando na nossa casa. Eles devem nos ajudar com essa loucura que anda o clima, com o sedentarismo que tem tomado conta do mundo, com qualquer outro problema que possamos encontrar com um design de roupas. O design de moda realmente deve começar a agregar forma e função ao invés de só fazer girar capital em peças sem qualidade e sem identidade.

05. O consumo em geral

Mudar a maneira como pensamos e consumimos moda deve alterar também como pensamos e consumimos tudo. Acredito que tudo muda a partir do momento que deixamos de julgar mal as pessoas. É um divisor de águas não viver para o que o outro diz e passar a viver para o que é certo para você. Não se sentir pressionada ou excluída por não ter isso ou aquilo nos deixa mais livres para investir no que realmente é importante para a gente. E esse consumo não é só material. Tanto pode ser uma bolsa quanto uma dieta ou uma cirurgia para ter um corpo que não precisa.

Bem, é claro que esse é só meu ponto de vista -bem otimista por sinal- do que pode acontecer ao derrubarmos – não mudarmos como foi feito durante todos os séculos anteriores, derrubarmos- os padrões de beleza e principalmente a maneira sem sentido como julgamos as pessoas. É claro que posso estar errada mas prefiro acreditar que não. Principalmente pelo o que eu tenho visto acontecer.

E vocês, para onde acham que essas mudanças podem nos levar?

23Out 2013

Chained – A alma encantadora de Bianca

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Eu tenho crise dos 15 anos. Sempre que vejo alguém mais novo do que eu cheio de talento e fazendo sucesso bate aquela insegurança, me sinto velha e parece que no alto dos meus 20 anos já devia ter feito tanta coisa. Mas é assim mesmo, né? Cada pessoa tem seu tempo, vai se encaixando e se descobrindo de maneiras diferentes. Tipo a Bianca, que com 18 anos, já faz músicas extremamente maduras. Difícil acreditar que a um ano atrás essa menina não podia beber, entrar nas boates, nem dirigir sem uma identidade falsificada hehe. A composição delicada e facilidade no canto fazem parecer que ela já viveu tanto e tem tanto a expressar, que não cabe em um pouco menos de duas décadas de vida.

Além disso, fica difícil não se surpreender com a notícia de que a menina é brasileira e carioca. Claramente inspirada em Regina Spektor, Kate Nash e outras cantoras cheias de romantismo e suavidade, Chained é uma composição em inglês que não deixa a desejar em absolutamente nada para um inglês nativo. Mas confesso que fico curiosa para ver toda essa desenvoltura com composições em português, pra bater aquele orgulho patriota, sabe? Mostrar pro mundo que ela é nossa.

E outra novidade dentro da novidade é o clipe da única música já lançada dela, Chained. Uma delicia ver como a produtora conseguiu traduzir com qualidade, coerência a essência dessa composição, que, apesar da maturidade, é muito jovem e leve.

Como dizem por aí, Bianca, how old is your soul, girl?

06Set 2013

YSL, Hedi Slimane e Continuidade de marcas

A continuidade de uma marca após a troca de seu diretor criativo é sempre um assunto polêmico. Por mais que se estude sobre o legado da marca, é impossível prever como o estilista fundador se portaria diante do passar dos anos. Quase todas as grandes maisons, perderam seus estilistas fundadores e foram submetidas a esse processo. Mais ou menos recentemente, foi a entrada de Hedi Slimane na direção da YSL que fez o maior estardalhaço. Isso porque o estilista tem uma pegada jovem, claramente ligada ao rock grunge, característica que não era nem de perto a do público alvo da YSL com suas cinturas altas, saias lápis midi, tecidos caros e visual sofisticado.

ysl e hedi

Só não entendo essa necessidade que as pessoas têm de manter padrões estabelecidos. Mais importante é ter zeitgeist e saber qual é seu tempo, com quem você está falando e o que quer transmitir. Yves Saint Laurent era o cara zeitgeist nos anos 60! Por isso que a maison tem a credibilidade que tem. Foi ele quem deu às mulheres o prazer de desfrutar de um smoking feminino, foi o primeiro a usar modelos negras em seus desfiles e mais do que qualquer outro, para mim, seu maior feito foi relacionar o seu trabalho com a arte modernista transformando um quadro de Piet Mondrian em uma coleção de moda. E uma coleção que dizia tudo sobre a juventude da época. Toda a androgenia e frescor da década de 60 estavam presentes lá.

Passaram-se os anos e Yves foi amadurecendo e essa maturidade refletindo em seu trabalho. É assim com todos os criadores. Nos anos 2000, ele continuou fazendo roupas belíssimas para suas mesmas “meninas” dos anos 60. Stefano Pilati, seu sucessor, manteve a mesma proposta. Até ser substituído por Hedi.

A arte contemporânea está profundamente ligada às tecnologias. O vídeo, a fotografia e a música, mesmo quando não são eles mesmos os meios de expressão artística, quase sempre estão ligados ao seu processo de criação. Ao meu ver, Hedi, mais do que criar coleções, fotografar e filmar,  sabe como ninguém fazer peças que compõem um diálogo lindo com essas mídias. Algo que conversa com o jeito que o Yves trabalhou com Mondrian. É claro que a entrada de Hedi na marca tem muito mais a ver com uma virada visando valor de mercado do que com conceito. Mas estrelismos à parte, Hedi é um cara talentosíssimo e merece sim o nome da marca que carrega. Que Yves esteja orgulhoso!

Tudo isso porque estou apaixonada por esse novo vídeo. (logo abaixo na continuação)

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03Set 2013

A historia da moda e do amor

Posted by at in Comportamento, Estudos, Geral, Moda

Umas das coisas mais fascinantes da moda é que ela acompanha a historia do mundo, da sociedade e como ela se comporta. Desde que a roupa deixou de cobrir o corpo só por proteção, ela expressa muito sobre a gente. Lá na Europa, na Idade Média, com o nascimento da burguesia e seu hábito de copiar as roupas dos nobres, já dizia muito sobre ser e parecer. Mas junto com essa burguesia também começou a disseminar uma coisa que até então era proibida: o amor, uma característica da moda muito mais interessante e que tem muito mais a ver com a maneira como usamos ela hoje.

love

Foi com a burguesia que a dura divisão de classes se desestabilizou e, essa nova camada, que não tinha regimes pré-definidos, estabeleceu seus próprios padrões. Entre eles estava o casamento por amor, coisa que até então não existia. Esse amor era moldado e o homem valorizava a mulher que fosse contribuir para a acumulação de riquezas da família sendo uma boa dona de casa.  Logo, os homens se “apaixonavam” pelas mulheres que aparentassem essas características, mas foi o suficiente para que a moda começasse a apresentar símbolos de comunicação interpessoal e individualidade.

E encontramos essas características até hoje. A gente sabe que a nossa imagem comunica as nossas características e ela fala mais alto quando tratamos de amor.  Entender, só de olhar, quem é aquela pessoa já faz com que surja o interesse por conhecê-la melhor. E externar as características certas, além de nos fazer sentir mais confiantes e seguras, faz com que a gente possa atrair a pessoa que tem mais a ver com a gente.

Eu adorei esse assunto e quero falar mais sobre ele. Mas enquanto penso um pouco mais sobre, dá pra ler um pouco sobre a história do amor aqui e sobre essa relação no capítulo Estética da Sedução do Império do Efêmero de Gilles Lipovetsky.