Fashion-Shaming: para quê falar mal da roupa alheia?

Faz quase um ano que eu botei a cara em Nova York. Confesso que Londres sempre me atraiu muito mais, mas, começar por Nova York, devemos combinar, é viver um sonho mesmo que seja um sonho que você nunca sonhou. E se você me perguntar o que mais me impressionou? Se foi a estrutura da cidade, as construções, a experiência da neve, a vista do Brooklyn Bridge ou ver a cidade toda iluminada do alto do Top of the Rock? Também. Mas, para mim, o mais apaixonante foi usar um casaco de pele, volumoso, branco, por muitos considerado excêntrico e extravagante, pasmem, sem ser julgada por isso.

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Era meu sonho ter um casaco daqueles. Antes mesmo de chegar lá passei noites pesquisando pela internet aonde eu poderia comprar. Achei, passei o cartão na Asos e mandei entregar no endereço aonde eu estaria dali a uma semana. Só para garantir que não ia curtir o inverno e a neve sem o meu casaco dos sonhos. Me falaram que o frio era cruel e que aquele casco jamais seria suficiente pra me aquecer diante temperaturas que beiravam a tortura medieval. Mas fazer o que? A gente, quando cisma com alguma coisa, nem a possibilidade de ter os nossos membros atrofiados nos faz desistir.

Acontece que quando ele chegou a realidade foi outra. Me pareceu muito ousado, tinha muito pelo, muito volume, MEU DEUS, eu jamais, em inverno algum, nem se estivéssemos no período mais duro da Era Glacial, poderia usar isso no Brasil. Não pelo frio mas pelo fato de ser impossível usar algo do tipo sem sofrer o desconforto de ser insultada pelas ruas, sem que as pessoas me olhassem estranho, sem que as pessoas fizessem piadas sobre como eu estou. Mas ele era tão lindo, tão fofinho e quentinho e, na época, com o dólar a 3 reais (saudades, dólar a 3 reais) não havia sido nada barato e era o que eu tinha investido pra passar o inverno por lá… Eu tinha que usar. USEI.

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Zoe Schlacter ao se deparar com a sua foto rolando no Snapchat

E foi naquele momento que, mesmo sem saber, senti o meu primeiro respiro de liberdade. Ninguém me olhou feio, ninguém ficou cochichando pelos cantos. Independente de eu parecer um Homo de Neandertal coberta com a pele de uns 5 ursos polares, ninguém deu a mínima. E, no final das contas, é assim que as coisas deveriam ser mesmo. Só eu tenho que me importar com a roupa que eu estou vestindo. É no meu corpo que ela está. Uma senhora fofa veio, inclusive, me elogiar e falar que eu estava vestida como um princesa para aquele dia horroroso e frio. Me senti tão bem. Me senti tão querida. Aquela mudança no dia de uma pessoa quando ela recebe um elogio inesperado de uma pessoa inesperada.

Mas parece que nem sempre é assim que as coisas funcionam. Mesmo na cidade onde as pessoas, supostamente, tem a mente aberta e prezam pela liberdade, aonde tudo acontece e tudo é possível, pessoas ainda se dão ao trabalho de continuar palpitando e, pior ainda, expondo a liberdade das outras pessoas. Pessoas são pessoas no mundo inteiro e mesmo que com uma cultura diferente, essa artimanha de tentar diminuir aquilo que é diferente de você para que não seja uma ameaça, ou simplesmente pelo prazer e pela sensação de superioridade, ainda é algo constante que, para muitos é difícil de desapegar. Principalmente quando estão protegidas pelo anonimato das redes sociais.

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Carlye Wisel sofreu Fashion Shaming e compartilhou a sua história com o Racked

Tá todo mundo meio perdido, tá todo mundo com as suas questões e as suas coisas na cabeça pra resolver e, em pequenas atitudes, as vezes elas se perdem. Uma pessoa que julga a roupa de alguém desconhecido na rua não é tão distante de atos de ofensa racistas, misóginos ou homofóbicos. Respeitar é ter pelo outro a consideração para não fazer ou não dizer coisas desagradáveis, mesmo que essa pessoa não vá saber. O respeito pelo outro acaba refletindo e dizendo muito mais sobre a gente do que qualquer outra coisa. Respeitar é uma palavra simples e ela não tem categorias.

Bora ajudar a espalhar essa ideia?

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